Eu estava jantando quando me chamaram. Eu desci. Quando a mulher me perguntou “Você tem um gato?” Eu pensei que ela estava querendo um dos meus, o que eu não ia dar. Então tive que pedir para ela repetir, e ela repetiu a mesma coisa, ao que eu tive que responder “Tenho, sim”. Então ela disse “Ele está morto, aqui do lado” e apontou para a calçada da vizinha. “Ele está morto” foi o que ela disse.
Na hora eu pensei que era um dos meus gatos que tinha desaparecido há um tempo. Eu não queria sair e ver. Mas eu fui.
Quando eu olhei, não soube discernir se o gato era realmente meu. Logo eu pensei no Bohan, o gato favorito da minha irmã, mas era muito magro para ser ele. Eu agachei e fiquei olhando.
“É seu?” não parava se me perguntar a moça, ao que eu não parava de responder “Eu não sei, eu não sei”. Mas eu sabia muito bem. Era uma gata, e ela não tinha nome. Isso porque ela, junto com a sua irmã, e outro que já havia morrido, eram ariscos. Eles viviam sim na minha casa, e comiam da ração que eu dava para os outros gatos, mas não deixavam encostarem neles.
Mas não foi nenhum desses motivos que me deixaram atônita, e sim como ela havia morrido. Foi atropelada. Mas o carro só lhe acertara a cabeça. Ou o pescoço. Eu não sabia ao certo. Eu não via um dos olhos, porque tinha pulado para fora, eu via muito sangue. Alguém disse que ela saiu pulando até cair jazida ali, e que a rua estava ensangüentada. Diziam algo sobre um fusca branco, sobre ter sido de propósito, e faziam piadas. Mas eu não ouvia, eu não ouvia nada, eu só conseguia olhar para a gata.
Então me levantei e disse “E minha sim, a gata” e a mulher colocou a mão no meu ombro e disse “Eu sinto muito”. Mas ela não sentia. Ninguém ali sentia absolutamente nada em relação a morte de uma gata qualquer. Nem eu mesma conseguia sentir. Eu queria muito, mas não sentia nada.
Eu subi de novo para pegar sacolas e desci. Achei que ia ter que fazer sozinha, mas meu irmão chegou do serviço. Ele já estava a par de tudo, com tanta gente a fofocar na rua. Ele guardou a bicicleta e veio até mim.
Eu disse “Você tira ela de lá?” E ele respondeu que precisaria de ajuda. Eu segurei uma sacola aberta, e com outra meu irmão pegou a gata do chão, e disse “Feche os olhos.” Eu não queria fechar, eu queria ver. Eu realmente queria ver, mas mesmo assim fechei os olhos. Depois ele pegou a sacola, já com a gata dentro e disse “Não dá pra enterrar agora, tá muito escuro. Amanhã cedo o pai enterra.” E deixou a sacola num canto da garagem. Eu tranquei o portão e subi. Meu jantar estava frio, e havia perdido o gosto.
Pela manhã, no “enterro” da gata, eu vi todo aquele sangue na frente da minha calçada. Então eu me lembrei de como o outro gato havia morrido. Apareceu o pobre infeliz no meu quintal literalmente quebrado ao meio. Não tinha o movimento das patas traseiras. Morreu se arrastando.
Então pensei “Teriam os excluídos que morrer sempre tragicamente, sem alguém com algum sentimento que não fosse pena a velar os seus corpos?”
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Mas que história triste ;_;~
ResponderExcluirBem, não conhecia o gato eu acho, mas num geral foi triste @_@
Por isso eu digo, quando morrer ninguém se lembrará de mim, nem de quem sou u-u *fazendo drama*
São os ofícios da vida D:
Tem coisas que acontecem e que não nos chocam mais, às vezes nem quer dizer que não nos importamos...
E muitas vezes são os próprios que escolhem que as coisas sejam assim, se é que me entende... Não sei ._.
Agora me confundi *apanha*
Que horror isso .-. é um fato irritante que muitos animais morrem atropelados sem que o cidadão atropelador ao menos se preste para parar e verificar o que aconteceu.
ResponderExcluirEu também não conheci o gato, mas credo.. que triste .__.
sinto muito também Naya... =/ força ok?
sz
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirMesmo um não excluído. Quando morto, já não chamamos pelo nome. Chamamos simplesmente de "corpo"!
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